sábado, janeiro 28, 2012

O ananás amargo


Dado a conhecer aos europeus por Cristóvão Colombo aquando da sua passagem, em 1493, por Guadalupe, o ananás começou a ser introduzido na Europa no século XVI. Depois da sua introdução em São Miguel, a partir de meados do século XIX, como planta ornamental, passou a ser cultivado para consumo das famílias mais abastadas e começou, em 1864, a ser exportado, primeiro para a Inglaterra e depois para outros países do Norte da Europa.

Sobre a cultura do ananás muito já foi dito e escrito, por isso vou limitar o meu texto a recordar um pouco a situação que se vivia há cerca de 40 anos e relatar o que se está a passar actualmente.

Não tenho conhecimentos teóricos e o meu contacto com a cultura do ananás foi muito ténue, pois da minha família apenas a minha avó e depois uma tia minha possuía uma estufa no quintal de sua casa, a qual já foi desmantelada há alguns anos.
Durante a minha juventude convivi com pessoas que, com uns carrinhos de mão, iam às matas buscar o que então se chamava o “enchimento” que vendiam aos donos das estufas. Também convivi e fui colega de escola de muitos “leiveiros”, que ganhavam a sua vida a tirar leivas dos matos localizados na área do Monte Escuro, as quais eram usadas para fazer as camas das estufas.

Não quero prosseguir sem referir aqui que os meus colegas “leiveiros” estão quase todos emigrados, pois se ganhavam bem com a extracção de leivas, aquela actividade era muito sazonal e a sua actividade principal, a agricultura, já se encontrava em declínio, a pecuária não absorvia toda a mão-de-obra disponível e a construção civil, na altura, não tinha a dimensão que tem nos nossos dias, apesar da crise em que está mergulhada.

Se antes havia o problema ambiental resultante da extracção de leivas em zonas sensíveis como a Serra Devassa ou a Reserva Natural da Lagoa do Fogo, hoje, segundo informação que recebi, os proprietários de estufas e a sua associação debatem-se com a “escassez” de incensos, pelo menos em zonas de fácil acesso, que possam ser utilizados, sem custos elevados, no cultivo do ananás.

Se outrora eram as zonas sensíveis as ameaçadas, hoje são algumas propriedades privadas que são alvo do vandalismo por parte de quem vende as ramadas de incenso aos donos das estufas.

Depois desta longa introdução, a seguir vou fazer referência ao que me preocupa, pois “quem caça de coração é o dono do furão”.

Já por diversas vezes tomei conhecimento de que os larápios haviam escolhido algumas estufas de ananases para colherem os frutos que outros tiveram o cuidado de plantar, mondar, regar, etc.

Mas, se há entre os proprietários de estufas e entre os fornecedores de “matérias primas” pessoas honestas, também há quem não tenha a mínima sensibilidade ambiental e social e que colabore, ainda que passivamente, para que os roubos continuem a proliferar.

No caso destes últimos, será que alguns donos de estufas têm o cuidado de fazer a aquisição a pessoas idóneas e de procurar saber qual a origem dos incensos que lhes são vendidos?

É claro que não, se assim fosse não teria acontecido comigo o que aconteceu. Assim, ao chegar a um terreno que possuo, em Vila Franca do Campo, no passado dia 16 de Janeiro, verifiquei que vários incensos constituintes de um abrigo (sebe) haviam sido tronchados, os ramos mais grossos deixados no caminho e os mais finos levados para serem triturados e usados em estufas.

Em jeito de conclusão, diria que os cultivadores de ananás debatem-se hoje com a carência de ramadas de incensos para as estufas, que existem extensas áreas da ilha de São Miguel invadidas pelo incenso e que seria de toda a utilidade para a conservação da flora nativa a sua erradicação, pelo que deveria haver um entendimento entre a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e a Secretaria Regional da Agricultura e Florestas para que o incenso retirado fosse cedido aos cultivadores de ananás, a custos aceitáveis.

Por último, ninguém deveria aceitar incenso cuja proveniência fosse desconhecida, só assim, pelo menos para mim, o doce do ananás não seria substituído pelo amargo de ver uma sebe destruída e uma plantação recente de fruteiras desabrigada.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 25 de Janeiro de 2012)

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Contra as touradas. Escreve aos deputados



Na próxima quinta-feira, dia 19 de Janeiro, a partir das 15h (depois de outros temas) será discutida no Parlamento a Petição “Pelo fim das corridas de touros em Portugal”, autoria da CAPT – Campanha Anti-Tourada de Portugal. Estará presente - em representação dos animais utilizados pela tauromaquia -, um grupo composto por ONGs de protecção dos animais e por activistas independentes.

Se quiser estar presente em frente à Assembleia da República, por favor considere trazer uma braçadeira preta (a pedido do CAPT) como sinal de luto pelos animais vítimas da tauromaquia.

Por favor não esqueça que estamos com a razão do nosso lado e não devemos perdê-la sob circunstância alguma, assim, pedimos a quem queria estar presente que venha em paz e não responda a provocações. O nosso comportamento deve sempre manter-se impecável; os animais merecem-nos isso.

Pedimos a todas as pessoas que lêem este apelo para que escrevam à Presidente da Assembleia da República e aos Grupos Parlamentares, pedindo-lhes que naquela discussão considerem os interesses dos animais e não os da tauromaquia. Por favor escreva a sua própria mensagem ou envie a mensagem abaixo sugerida para os seguintes contactos:Presidente da Assembleia da República (para enviar uma mensagem à Presidente terá que colar a sua mensagem no espaço a ela destinado): http://www.parlamento.pt/sites/PAR/PARXIIL/Contacto/Paginas/default.aspx

Grupo Parlamentar do PS Gp_ps@ps.parlamento.pt
Grupo Parlamentar do PSD Gp_psd@psd.parlamento.pt
Grupo Parlamentar do PP Gp_pp@pp.parlamento.pt
Grupo Parlamentar do BE Bloco.esquerda@be.parlamento.pt
Grupo Parlamentar do PCP Gp_pcp@pcp.parlamento.pt
Grupo Parlamentar”Os Verdes” Pev.correio@pev.parlamento.pt

Mensagem sugerida:

Exma. Senhora Presidente da Assembleia da República,

Exmas./os Senhoras/ Senhores Deputados à Assembleia da República,

Excelências,

Tomei conhecimento de que a petição pública “Pelo fim das corridas de touros em Portugal” - apresentada pelo CAPT - Campanha Anti-Tourada de Portugal, em Julho de 2011 - , irá ser discutida em plenário da Assembleia da República no próximo dia 19 de Janeiro. Embora saiba que alguns parlamentares são simpatizantes da tauromaquia, tenho razões para acreditar que a maioria de V. Exas. é constituída por pessoas compassivas e esclarecidas, que sabem que não é possível em 2012 ainda se acreditar que animais devem ser massacrados e posteriormente mortos para entretenimento de uma facção da população portuguesa. A ciência, fundamentada na investigação anatómica, fisiológica e neurológica dos animais usados na tauromaquia, confirma o que o senso comum revela: touros e cavalos sofrem antes, durante e depois dos espectáculos tauromáquicos. Além destas questões de âmbito cientifico e moral, apresenta-se-me ainda como ultrajante que num momento de grave crise económica, estando a maior parte das Câmaras Municipais do país com dificuldades em conseguirem cumprir os seus compromissos mais básicos e manterem todos os seus funcionários, continuem a subsidiar a actividade tauromáquica.A tauromaquia ainda subsiste em 9 países do Mundo, mas na última década têm-se assistido a verdadeiros exercícios de civilização da sociedade, nomeadamente com a declaração de dezenas e dezenas de cidades e vilas como “Anti-touradas”, e até mesmo uma região assim foi declarada: a Catalunha. Os sinais de que estas decisões se alargarão a mais cidades, vilas, regiões, e até países, são claros, e não tenho qualquer dúvida de que o meu país será um dia um país livre de touradas.

V. Exas. foram eleitas/os meus representantes, e é como tal que vos peço que façam soar a minha posição em plenário. Não quero nem posso admitir que um país que foi pioneiro na abolição da pena de morte, e que tem estado na linha da frente do progresso civilizacional de tantas outras formas, um país para o qual contribuo mesmo em tempos difíceis, seja conhecido no seu trato aos animais como sendo uma nação bárbara, retrógrada e cruel.

Na certeza de que V. Exas. tomarão em consideração esta minha mensagem, despeço-me,
Muito respeitosamente,

De V. Exas.
Nome:
Localidade:

quarta-feira, janeiro 04, 2012




O MAOISMO NOS AÇORES

A leitura do livro “Margem de certa maneira. O maoismo em Portugal: 1964-1974”, baseado na tese de doutoramento em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra defendida, em Março de 2011, por Miguel Cardina, levou-me a, durante alguns dias de merecido descanso, por altura do Natal e do Ano Novo, tentar consultar o meu arquivo pessoal, sobre os primeiros anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, e a buscar na minha memória alguns factos e os seus protagonistas que de algum modo estiveram ligados à referida ideologia política.
A única organização que se afirmava marxista-leninista e maoista e ainda hoje tem alguma presença, muito reduzida, nos Açores, é o PCTP-MRPP- Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses que é herdeiro do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, criado em 18 de Setembro de 1970.
O PCTP- MRPP, nos anos a seguir ao 25 de Abril teve alguma presença na Horta, em Angra do Heroísmo e em Ponta Delgada. Lembro-me de ver cartazes anunciando a presença do seu líder, Arnaldo Matos, num comício a realizar no Cine São Pedro, em Ponta Delgada, suponho que em 1975 ou 1976, de haver um correspondente do seu jornal “Luta Popular”, na Horta, e de se chamar José Ornelas o seu porta-voz, em Angra do Heroísmo.
Para além do referido, o que recordo mais é a presença de uma colega que frequentava o Instituto Universitário dos Açores e que, entre 1976 e 1978, fazia a venda militante do órgão central do PCTP-MRPP, o “Luta Popular”, o qual uma vez por outra trazia textos sobre a situação em que viviam os camponeses e pescadores açorianos, e que também vendia algumas publicações, como as “Obras Escolhidas de Mao Tsetung”, quer as editadas em Pequim, quer o Tomo 5, relativo ao período de 1949 a 1957, editado, em Portugal, pela Editora Vente de Leste.
A outra organização que, tal como o MRPP, teve alguma actividade sobretudo em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, foi a OCMLP – Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa, que foi criada na cidade do Porto, em 1972, e que terá chegado cá devido à sua implantação junto de alguns estudantes açorianos que estavam naquela cidade a frequentar a Universidade.
Uma parte da OCMLP, tal como outros grupos marxistas-leninistas, integrou-se, em 1976, no Partido Comunista Português Reconstruído (PCP (R)), que se extinguiu em 1992, e na União Democrática Popular, que era uma “frente de massas” desse partido. Em 1999, já depois de ter deixado cair a ideologia marxista-leninista e o maoismo, a UDP integrou-se no Bloco de Esquerda.
Os simpatizantes ou militantes da OCMLP, nos Açores, tiveram uma actividade muito intensa a seguir ao 25 de Abril, junto de alguns sindicatos, associações culturais e recreativas e editaram o jornal “Luta Pela Democracia Popular”, entre Abril de 1975 e Março de 1977.
A OCMLP editou uma revista cultural denominada Spartacus, que chegou a ser distribuída nos Açores e publicou o jornal “O Grito do Povo” que, também, foi distribuído no arquipélago.
A OCMLP, que condenava simultaneamente as duas potencias imperialistas, os EUA e a URSS que lutavam entre si, num comunicado a propósito do 6 de Junho de 1975 denunciou “as movimentações “autonomistas” e de “independência” dos Açores, como manobra do imperialismo americano” e os social-imperialistas soviéticos que eram rivais e aliados dos EUA na partilha de Portugal.
Em vários números do jornal “O Grito do Povo” é referida a existência de uma organização clandestina, que terá surgido a seguir à manifestação do dia 6 de Junho, denominada ARAFAI- Acção Revolucionária Anti-fascista e Anti-imperialista que distribuía comunicados, alguns nos Quartéis de São Miguel, a condenar a actividade da FLA.
Hoje, desconheço o paradeiro de grande parte das pessoas que ou simpatizaram ou fizeram parte das duas organizações mencionadas. Algumas desligaram-se da actividade política, outras mudaram de posição, isto é, passaram da extrema-esquerda para o centro ou para a direita.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 4 de Janeiro de 2011)

terça-feira, janeiro 03, 2012

Em defesa das lagoas: do surgimento da Quercus à morte do SOS-LAGOAS

sábado, dezembro 24, 2011

Boas Festas

quarta-feira, dezembro 21, 2011



A Escola, um paraíso na Terra?

Com mais de trinta anos de serviço prestado, em várias escolas da ilha de São Miguel e numa da ilha Terceira, acho que estou a atingir o limite das minhas forças e da paciência, não só porque as maleitas associadas à idade já começam a pesar um pouco, mas também porque da parte de quem as devia frequentar, alguns alunos, a receptividade à aprendizagem, por vezes deixa muito a desejar.

Tenho plena consciência de que a sociedade modificou-se, infelizmente nem sempre para melhor, e de que uma parte, se calhar grande, do problema estará do meu lado. Com efeito, não me consigo adaptar à hipocrisia de alguns responsáveis nem ao desrespeito à sociedade e a quem trabalha por parte de quem está na escola apenas para passar o dia no recreio e a perturbar as aulas, desrespeitando quem quer aprender e quem se esforça por ensinar.

Hoje, a escola, e não só, parece-me uma grande produtora de espectáculos cujo único objectivo é transmitir para o exterior que tudo está bem, quando a realidade, sentida por quem a quer sentir, é outra e não há meios para a alterar, por mais que venham dizer que com o actual estatuto do aluno a situação estará a dois passos de ser solucionada. Fico à espera, sentado para não me cansar, de ser aplicada a primeira “multa” aos pais e que esta seja paga com o seu vencimento e não com o chamado “rendimento social” para atirar um bom par de roqueiras.

Gostaria, também, de saber como se pode mudar a escola quando nada se faz, digno de ser realçado, para mudar a sociedade.

Será que é possível exigir disciplina e rigor na escola quando cá fora se fomenta a alienação e o facilitismo? Será que se pode ter outra escola quando se dificulta a participação das famílias, aumentando horários de trabalho e reduzindo os vencimentos?

Será que se pode ter outra escola quando não se motiva os professores, obrigando-os a fazer um conjunto de tarefas inúteis, como planos para isto e para aquilo, quando se sabe que muitos deles não têm meios para sair do papel ou quando se implementam aulas de substituição em moldes que não dignificam os docentes e não servem aos alunos?

Até aqui, limitei-me a referir alguns assuntos de carácter genérico, mas como sou professor de uma disciplina que se inclui nas denominadas ciências experimentais, não queria deixar passar a oportunidade para lamentar o facto dos nossos deputados/governantes, alguns dos quais professores, mas possivelmente sem qualquer vocação para tal, terem, depois de elogiado, da boca para fora, a importância do ensino das ciências, diminuído a sua carga horária.

Também não compreendo como se pretende fomentar o ensino experimental e não se orçamentam as verbas necessárias para pelo menos repor o que nos laboratórios se vai tornando obsoleto ou vai avariando. Culpa da Secretaria Regional que tutela a educação ou insensibilidade dos Conselhos Executivos?

Senhores responsáveis por esta situação, trabalhar, num computador, com laboratórios virtuais não é a mesma coisa do que realizar uma actividade experimental numa sala de aula. Como muito bem escreveu uma estudante de mestrado na Universidade de Aveiro “os laboratórios virtuais não substituem os processos reais. Julgo que esta deve ser a ideia geral a reter. Portanto, o professor deve estar consciente de que o recurso a estes meios apenas deverá ser ocasional”.

Sobre o assunto, o professor, pedagogo, historiador da ciência e da educação, divulgador científico e poeta Rómulo de Carvalho, em entrevista ao Público, em 1996, disse o seguinte: “Em relação ao ensino experimental, as experiências acompanham aquilo que queremos ensinar quando estamos na aula, mas o método de ensino não é exclusivamente experimental. As experiências servem para esclarecer o aluno sobre aquilo que está a ouvir. Eu levava sempre para a aula material que punha em cima da mesa e os alunos olhavam com toda a curiosidade: ‘Para que é isto? Para que é aquilo?’ À medida que ia falando, ia preparando as coisas e mostrando o que se passava, para ilustrar aquilo que estava a dizer.” Será que já está ultrapassado?

Quem não conhece a realidade das escolas e quem lê os jornais por elas editados ficará com a ideia de que nelas não há problemas de indisciplina, que os laboratórios estão todos bem apetrechados, que as novas tecnologias foram capazes de motivar os alunos, que os professores se sentem realizados profissionalmente e que voluntariamente participam nas baterias de actividades de final de período ou comemorativas disto ou daquilo. Enfim, como dizia o meu avô Manuel, a escola é “um céu aberto fechado numa grota”.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 21 de Dezembro de 2011, p.9)

sexta-feira, dezembro 16, 2011




«BISPO CONDENA E PEDE A ABOLIÇÃO DA CORRIDA DE TOUROS»
Não, infelizmente, isto não é em Portugal.

Em Portugal os bispos estão calados. Coniventes com a barbárie. Cúmplices do espectáculo sádico, que é o Massacre de Touros (vulgo Tourada).

Este é o título de uma notícia, de outro país, que tal como o nosso, ainda não se libertou das trevas, mas onde a Igreja Católica toma posição.

Eis a notícia traduzida, para ser melhor compreendida:

«São numerosas as declarações de membros da Igreja Católica que vêm condenando as corridas de touros. Uma delas é a do Secretário do Vaticano, Bispo Pietro Gasparri que em 1923, disse: “Embora a barbárie humana ainda persista nas corridas de touros, a Igreja continua condenando em voz alta estes sangrentos e vergonhosos espectáculos, como o fez Sua Santidade o Papa Pio V”.

«Recentemente, em Novembro de 2011, o Bispo de Maracaibo, na Venezuela, manifestou-se, dizendo: “Os maus-tratos de animais são um triste e lamentável prolongamento que os seres humanos se infringem mutuamente, e dos quais as mulheres, as crianças e os idosos são as principais vítimas”».
Mais adiante o mesmo Bispo disse: «Como poderemos erradicar do mundo a crueldade e os maus-tratos se nós próprios os apoiamos num espectáculo para divertir o povo?»

«Não obstante, na Colômbia e no mundo, são muitos os que se dizem católicos, e de manhã vão à missa e, de joelhos, rogam pela paz, pela vida, pelo amor, pelo respeito, e à tarde assistem a um dos espectáculos mais cruéis e esvaziados de valores como são as violentas corridas de touros».
Estas declarações podem ser ouvidas através do seguinte link:

https://www.facebook.com/#!/photo.php?v=2895565034196
SENHORES BISPOS PORTUGUESES, PARA QUANDO UMA TOMADA DE POSIÇÃO PÚBLICA, DE ACORDO COM OS PRINCÍPIOS CRISTÃOS, NO SENTIDO DA ABOLIÇÃO DA TORTURA DOS TOUROS E DOS CAVALOS NAS ARENAS PORTUGUESAS?

Fonte: http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/67265.html
BIBLIOFILIA



Meu pai foi camponês, com alguma terra, e minha mãe doméstica, filha de um pequeno lavrador que durante algum tempo também foi vendedor de leite, numa antiga mercearia e a vizinhos, antes das fábricas de lacticínios se instalarem na ilha de São Miguel.
Dada a origem social, a minha família não me proporcionou, em criança, acesso aos livros, a não ser a uns poucos velhos manuais escolares que haviam sido de minha mãe. Apesar desta lacuna, desde muito cedo me interessei pela leitura e saciei o meu gosto por ler requisitando o número máximo permitido pela biblioteca ambulante da Fundação Calouste Gulbenkian que mensalmente visitava a Ribeira Seca de Vila Franca do Campo.

Mais tarde, com o meu ingresso no Externato de Vila Franca, continuei a ler não só os livros de leitura obrigatória mas também muitos outros que requisitava na biblioteca fixa da Gulbenkian que existia na Vila ou que me eram emprestados por pessoas que os possuíam.

Com a minha ida para Ponta Delgada para frequentar o antigo sexto ano de escolaridade (actual décimo ano), com todas as economias que conseguia fazer, comecei a comprar os primeiros livros, jornais e revistas. Na altura, 1974, para além de comprar tudo o que se relacionava com a história dos Açores, alguns romances de escritores de renome portugueses, como Eça de Queirós, e brasileiros, como Jorge Amado, também adquiria quase tudo o que se relacionava com as diferentes correntes políticas, nomeadamente as situadas no lado esquerdo do espectro político-partidário.
Alguns anos mais tarde, a minha pobre e pequena colecção foi muito enriquecida com uma oferta que me fez o camponês e investigador autodidacta Manuel Amaral Brum que se encontrava emigrado nos Estados Unidos da América. Com efeito, aquando de uma sua visita a São Miguel fui convidado por ele para o ajudar a seleccionar livros para oferta ao então Instituto Universitário dos Açores e como paga recebi uma fabulosa colecção de livros sobre os Açores, de que destaco as primeiras edições das Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, e os seis volumes de “A Vila - História de Vila Franca”, a maioria dos volumes de “A vida dos nossos avós - Estudos etnográficos da vida açoriana através das suas leis gerais” e alguns romances, todos da autoria do vilafranquense Urbano de Mendonça Dias.

Com o decorrer dos anos, o meu convívio diário com os livros e com a leitura nunca esmoreceu e ao longo dos tempos fui aumentando a minha colecção quer através da compra de livros, quer das muitas ofertas que recebi. No que a estas diz respeito, destacaria um conjunto de livros, nomeadamente romances, que pertenceram ao jovem artista plástico micaelense José Manuel de Medeiros Cabral e uma dezena de títulos da autoria do Dr. João Anglin, antigo reitor do Liceu Nacional de Ponta Delgada, que este dedicou à sua “antiga aluna e estimada prima Maria Emília Soares Pereira”.
Embora não tenha por hábito ir a sessões de lançamento de livros e de “pedir” dedicatórias aos seus autores, tenho uns tantos que alguns tiveram a gentileza de me enviar com dedicatória. Entre esses livros destacaria “Açores - Origens, Raízes e História”, editado em 1999, que o seu autor, o jornalista e escritor micaelense Manuel Ferreira, escreveu “em honra e louvor de todos os Açorianos que sabem manter a chama viva da Açorianidade e alto o pensamento na exaltação da pequena Pátria Açoriana”.

Sem nunca abandonar a temática açoriana, nos últimos tempos, tenho lido e comprado biografias e publicações diversas sobre a resistência à ditadura de Salazar e Caetano e sobre os primeiros anos após a chamada Revolução dos Cravos.

É deste período que tenho a assinatura mais “famosa”. Está no livro “O imperialismo e a revolução”, editado pelas Edições Bandeira Vermelha, em 1978, e é da autoria de um membro do Partido Comunista do Brasil, o Eng.º Diógenes Arruda Câmara, que foi perseguido e torturado pela ditadura fascista brasileira e que esteve exilado em Portugal, onde desempenhou um papel de relevo na criação do, hoje extinto, Partido Comunista Português Reconstruído e da União Democrática Popular, um dos partidos, também já desaparecido, que esteve na origem da criação do Bloco de Esquerda.

Diógenes Arruda e Jorge Amado foram grandes amigos, de tal modo que o famoso escritor brasileiro fez dele uma das personagens (Vítor) e a ele dedicou o seu romance “Subterrâneos da Liberdade”.

Teófilo Braga

sábado, novembro 26, 2011

O Padre Mário fala da Greve Geral

domingo, novembro 20, 2011

Em defesa das aves




Foi criado um novo blogue sobre aves dos Açores que pode ser consultado aqui:
http://avifaunadosacores.blogspot.com/

segunda-feira, novembro 14, 2011

Em defesa das aves e dos Açores


Assine a petição aqui: http://www.peticaopublica.com/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=AVESACOR

quarta-feira, novembro 09, 2011

Em defesa da avifauna açoriana


Para: Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores; Sua Excelência Presidente do Governo Regional dos Açores; Sua Excelência Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores; Suas Excelências Presidentes dos Grupos Parlamentares à ALRAA;

Face ao recente propósito do Governo Regional dos Açores de incluir espécies de aves nativas açorianas na Lista das espécies cinegéticas, através do novo decreto regional - Regime Jurídico da Conservação da Natureza e da Protecção da Biodiversidade, actualmente em discussão na Assembleia Regional, os assinantes desta petição querem chamar a atenção para:

1. A falta de estudos científicos sobre a biologia destas espécies e dos seus habitats. Existe um grande desconhecimento sobre a caracterização genética dalgumas destas espécies, levantando grandes problemas na conservação da sua biodiversidade. Para além disso, os habitats que todas estas espécies ocupam são muito restritos e sensíveis, pelo que qualquer alteração neles poderá ter também grandes implicações na sua conservação. Faltam igualmente estudos sobre a importância que a região desempenha nas migrações de determinadas aves.

2. A falta de atribuição dum estatuto de conservação às aves incluídas nesta lista. Nenhuma das espécies incluídas nesta lista de espécies cinegéticas tem atribuída uma categoria de conservação na região biogeográfica dos Açores, não existindo ainda os estudos científicos necessários para tal efeito. No entanto, atendendo aos critérios internacionais utilizados, parece provável que algumas destas espécies venham a ser qualificadas como espécies ameaçadas (e catalogadas portanto como criticamente em perigo, em perigo ou vulneráveis).

3. A falta de estudos sobre o impacto da caça nestas espécies e os seus habitats. O impacto da caça nas espécies incluídas na lista poderá ser especialmente grave devido às suas muito reduzidas populações e ao facto delas ocuparem habitats, nomeadamente os de alimentação, muito escassos e localizados. A actividade da caça deverá ainda afectar a todas as espécies que ocupam esse habitat, incluídas ou não nesta lista das espécies cinegéticas. E no caso das zonas húmidas, a caça poderá levar à contaminação das águas com chumbo e à aparição da doença do saturnismo.

4. A impossibilidade prática de aplicar esta lista devido à enorme dificuldade de identificar correctamente as espécies. Algumas espécies incluídas nesta lista são quase impossíveis de diferenciar de outras espécies não incluídas nela e que também estão presentes regularmente nos Açores. Isto acontece nomeadamente com várias espécies de patos europeus em relação aos seus equivalentes americanos, e mais ainda em relação às narcejas europeias e americanas.

5. O problema da introdução de espécies exóticas. O facto da lista de espécies cinegéticas incluir também duas espécies de aves exóticas coloca em clara perspectiva a introdução destas no meio natural. Introduções deste tipo, já realizadas no passado, parecem ignorar os riscos associados às espécies exóticas num meio tão particularmente frágil como o meio insular açoriano. As espécies e variedades exóticas podem causar, como no caso das codornizes, graves problemas de hibridismo e de diminuição do património genético das espécies nativas, para além de introduzir também agentes patogénicos.

6. A necessária aposta no turismo de observação de aves. O arquipélago dos Açores é uma região privilegiada para a observação de aves migratórias americanas e europeias (mais de 400 espécies observadas nos últimos anos) e tem enormes oportunidades para o desenvolvimento do turismo de observação de aves (birdwatching), já em franca expansão. Este tipo de turismo traz inúmeras vantagens económicas para a Região: é uma actividade repartida por todas as ilhas; acontece principalmente durante os meses de outono e inverno; é um turismo verde e sustentável, quase sem impacto no ambiente; e injecta dinheiro de fora da Região na economia das ilhas. Mas este turismo, como é evidente, é incompatível com a permissão da caça das espécies da avifauna açoriana.

Assim, os assinantes desta petição solicitam:


- A não inclusão das espécies de aves nativas (reprodutoras ou visitantes) na lista de espécies de carácter cinegético dos Açores.
- A não introdução de espécies exóticas, nomeadamente aves, com um propósito cinegético no meio natural dos Açores.
- O desenvolvimento dum turismo verde associado à observação de aves que traga vantagens económicas a todas as ilhas açorianas.

Assine aqui:

http://www.peticaopublica.com/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=AVESACOR

segunda-feira, outubro 24, 2011

Este ano salve um cagarro




O cagarro é uma ave oceânica que vem a terra apenas durante a época de reprodução. Este período decorre entre Março e Outubro altura em que as crias já suficientemente desenvolvidas partem com os seus progenitores em direcção ao mar, dispersando-se pelo Oceano Atlântico e regressando apenas no próximo ano.

A sua partida realiza-se de noite e muitas delas são atraídas pelas luzes das nossas vilas e cidades, acabando por cair em terra e sendo-lhes neste caso impossível voltar a levantar voo se não forem ajudadas.

Sendo os Açores uma das zonas mais importantes no que respeita à reprodução dos cagarros é muito importante que um máximo de aves seja salva para que o nível populacional da espécie se mantenha.

Se encontrar durante o dia um cagarro devolva-o ao mar. Se o encontrar à noite recolha-o, de preferência numa caixa fechada (de papelão), não tente alimentá-lo e devolva-o ao mar logo na manhã seguinte.

sexta-feira, setembro 30, 2011

Vamos participar, nos próximos dois meses, activamente na protecção e salvação do cagarro!
Aqui vão alguns documentos sobre a espécie/campanha em sua defesa.


Texto do Grupo de Ecologistas de Santa Maria (1984)


Texto de Miguel de Figueiredo Corte-Real (1988)


Texto da responsabilidade do Núcleo de Ornitologia dos Amigos da Terra Açores (1989)


Publicidade da Direcção Regional do Ambiente (1997)

domingo, setembro 11, 2011

Os primeiros cinco anos em defesa das Lagoas

quarta-feira, setembro 07, 2011




O JOVEM LIBERTÁRIO JOÃO ANGLIN

O gosto pela leitura, nomeadamente de quase tudo ao que aos Açores diz respeito, fez com que, há alguns anos, tenha chegado às minhas mãos uma separata da revista “Insvlana” dedicada ao jornal de inspiração anarquista “Vida Nova”, de Ponta Delgada, que terei lido e não dado muita importância.

Em 2010, no âmbito do meu envolvimento na defesa dos animais, ao pesquisar sobre Alice Moderno, precursora dos actuais movimentos de defesa do ambiente e amiga dos animais, deparei-me com um texto de João Anglin, no jornal “A Folha”, que primeiro havia sido publicado no “Vida Nova”.

A leitura, quase simultânea, da História dos Açores, do Dr. Carlos Melo Bento, onde o Dr. João Anglin era apresentado como “professor liceal de grande mérito pedagógico, legionário nacionalista e um dos importantes esteios do regime” e do livro “A oposição ao Salazarismo em São Miguel e em Outras Ilhas Açorianas (1950-1974) ” onde num texto da Doutora Sacuntala de Miranda a dado passo se fica a saber que o Liceu Antero de Quental, em pleno regime salazarista conservava sob a gestão do Dr. João Anglin “significativos traços democráticos” e que aquele “estava longe de ser uma figura autoritária e era coadjuvado, nas suas funções, por professores de tradições democráticas, como o meu pai e o Dr. João Bernardo Rodrigues”, despertou-me a curiosidade em conhecer melhor a personalidade do Dr. João Anglin que foi durante muitos anos reitor do Liceu Antero de Quental, escola onde frequentei os antigos 6º e 7º anos do Ensino Liceal.

Através da investigação que fiz cheguei à conclusão que, na sua adolescência, ele foi um militante libertário, já que, como escreve João Freire, não se limitou a “uma adesão intelectual à doutrina”, mas teve uma actividade de relevo “no sentido de difundir e alargar o raio de influência social” do ideal anarquista como o demonstram os textos que publicou no “Vida Nova”.

A seguir, apresento um pouco do pensamento de João Anglin durante o período que vai de 8 de Junho de 1908 a 22 de Abril de 1911.

O 1º de Maio, data comemorada em Portugal desde 1890, foi tema usado por João Anglin em dois textos. Para além da denúncia da situação degradante em que viviam (e vivem) os mais explorados, nomeadamente os operários, há nos textos uma mensagem de denúncia do capitalismo e da transformação da data, por alguns, em dia de “festas e patuscadas” e uma palavra de esperança numa revolução que “se não fará esperar muito”. Só quando tal acontecer, escrevia João Anglin, aquele dia deixará “de ser um dia de protesto e de luta para ser um dia de festa e regozijo universais”.

O anti-militarismo foi, também, um assunto que não esteve ausente das preocupações e textos de João Anglin e do “Vida Nova” à semelhança do que acontecia noutros jornais nacionais que publicavam cartas/apelos aos soldados ou cartas destes a descrever a vida nos quartéis. João Anglin, para além considerar os quartéis como “focos de imoralidade e ociosidade” escrevia que com a incorporação no exército perdiam-se braços produtores (na agricultura) e quem beneficiava era “o Estado e toda essa corte de satélites que em torno dele adejam, porque assim é mais um autómato a servi-los, mais uma lança a defendê-los”.

A influência da Igreja Católica na sociedade micaelense foi um dos alvos da luta de João Anglin como se pode confirmar através da leitura de vários textos onde, mais do que combater os fundamentos da religião, aponta as suas baterias para os “ministros” que corrompem “as sublimes doutrinas do fundador do Cristianismo”.

Na maioria dos textos de João Anglin, a educação e a instrução são os temas principais. Segundo ele, a sociedade retrógrada em que vivia só poderia ser destruída por meio da instrução que segundo ele é:

“O único guia seguro que dirige os povos pela estrada que conduz à civilização; ela é também o meio eficaz para as massas proletárias se libertarem do jugo que lhes impõe a burguesia.
Só por meio de uma instrução baseada nos princípios da justiça e do amor, é que o povo compreenderá os seus direitos e gritará bem alto: Queremos liberdade.”

T. Braga

Fonte: http://www.correiodosacores.net/index.php?mode=noticia&id=34791

domingo, agosto 28, 2011



Políticos, ex-governantes socialistas, docentes e investigadores universitários, ecologistas, ambientalistas e cidadãos contra a Incineração de resíduos nos Açores
Ex-membro do governo de César contra queima de lixo em São Miguel


O ex-secretário regional do Ambiente de um dos governos socialistas de Carlos César, o ainda deputado socialista Hélder Marques da Silva, voltou ontem a manifestar-se contra a solução de queima de lixos em São Miguel. “Fui e sou contra”, acentuou ao jornalista. “Apesar destes novos sistemas de incineração terem fi ltros que garantem uma contaminação mínima do ambiente envolvente, a verdade é que há sempre riscos, até uma avaria…”, afi rma o deputado socialista.

Além do mais, prossegue, “há que evitar as dúvidas das populações que vão persistir apesar de todas as explicações”, sublinhou.

Estas declarações de Hélder Marques da Silva, a pedido do jornalista do ‘Correio dos Açores’, surgem numa altura em que se encontra em consulta pública o estudo de impacto ambiental “Ecoparque da Ilha de S. Miguel” que integra a construção de um equipamento de queima de resíduos, vulgo incineradora, e que a associação ecológico ‘Amigos dos Açores’ torna público um manifesto em abaixo-assinado contra a incineração de resíduos em São Miguel.

Esta petição é assinada por Catarina Furtado, actual directora regional da Energia; por Roberto Terra, administrador da empresa pública ‘Azorina’; pelo ex-director regional da Energia, Rui Coutinho, que é, actualmente, dirigente da Quercus de São Miguel. Eduardo Carqueijeiro, que foi director do Ambiente, pertence à página do ‘Facebook’ contra a incineração; e, entre outros – alguns engenheiros do ambiente e o ecologista Teófilo Braga.

Assinada ainda a petição da associação ‘Amigos dos Açores’, Hélder Góis, assessor da secretária regional da Educação; pelo investigador do DOP, Filipe Mora Porteiro; pelo ex-director da ARENA – Agência Regional da Energia, Pedro Perpétua; e a Regina Cunha, membro da equipa do estudo de impacte ambiental da instalação da incineradora em São Miguel.

Proibir instalação de incineradoras

No manifesto, a associação ecológica ‘Amigos dos Açores’ quer que o Parlamento dos Açores adopte “os princípios da precaução e da incerteza no que respeita à introdução da incineração nos Açores”.

Pede a “proibição da instalação de incineradoras nos Açores, bem como da queima de resíduos sólidos urbanos para produção de energia”.

É apologista da “eliminação da incineração por constituir prática altamente comprometedora e incerta quanto aos riscos ambientais para as gerações presentes e futuras”.

Defende “o desenvolvimento de políticas governamentais que tenham por objectivo a prevenção e a redução de resíduos”.

No entender da associação ecológica, “a adopção da queima de matérias após o seu consumo não constitui solução para a resolução da problemática social que é a gestão de resíduos”.

Releva que a incineração é, a nível mundial, uma das principais fontes de poluentes - como dioxinas, furanos, metais pesados como o mercúrio, poluentes orgânicos persistentes - responsáveis por danos
ambientais irreversíveis e doenças mortais, e que existem convenções internacionais (como a Convenção de Estocolmo) que recomendam que o uso da incineração seja eliminado progressivamente.

“Enquanto região altamente comprometida com a qualidade e responsabilidade ambiental”, diz a associação ecológica, os Açores “devem adoptar medidas sustentáveis que não são compatíveis com a queima de resíduos sólidos urbanos que produzem emissão de gases que contribuem para o aquecimento global, que implicarão a compra de quotas de emissão de CO2 com o dinheiro dos contribuintes”.

“Não à combustão de resíduos”

Os ‘Amigos dos Açores’ consideram que emissões aéreas resultantes da incineração, compostas por cerca de duas centenas de compostos químicos diferentes, “são incontroláveis e que as cinzas resultantes do processo de queima são classificadas como resíduos perigosos, necessitam de tratamento, em função da sua toxicidade, para deposição posterior em aterro”.

Consideram que o investimento “crescente da Região num sistema integrado de recolha, triagem, reutilização e reciclagem de resíduos tem resultado numa consciência e educação ambiental progressiva dos cidadãos, que urge evoluir para a prevenção da produção de lixo e não para a remediação que é a combustão de resíduos”.

Dizem que, noutros locais do mundo, que efectuam reciclagem conjuntamente com incineração, a taxa de recolha de materiais recicláveis é, geralmente, muito baixa e que é necessária a compra a territórios vizinhos de resíduos para queima, “o que no caso dos Açores, dada a pequena escala e a descontinuidade territorial, assumiria uma problemática ainda mais complexa”.

Sublinham que a queima de resíduos “destrói materiais com potencial de reutilização e reciclagem, que implica o consumo de novas matérias-primas e consumo de energia para a sua transformação e que a energia eléctrica produzida pelas incineradoras pode ser proveniente de fontes renováveis (como da geotermia nas ilhas de São Miguel e Terceira), a opção pela incineração de resíduos sólidos urbanos constitui um processo de desvalorização energética e de aumento do consumo de recursos naturais”.

João Paz

Correio dos Açores, 27 de Agosto de 2011

sexta-feira, agosto 26, 2011

O Padre Himalaya



Foto: http://ruasdoporto.blogspot.com/2007/09/rua-padre-himalaya.html


1- O sábio

O padre Manuel António Gomes (1868-1933), mais conhecido por padre Himalaya, devido à sua estatura, foi o cientista português que construiu um aparelho chamado pirelióforo que recebeu o grande prémio da Feira Internacional de Saint. Louis, nos Estados Unidos da América, em 1904.

O pirelióforo, um forno solar com 13 m de altura, com uma superfície reflectora de 80 m2, possuía 6117 espelhos de 12x10 cm cada um, atingia temperaturas na ordem dos 3800 º C e foi criado com o objectivo de ser usado para a produção de água potável em regiões desérticas, para a produção de vapor para a indústria, para a fusão de alguns materiais e para a produção de fertilizantes.

Outra das invenções do padre Himalaya foi um explosivo, chamado “himalaite”, três vezes mais potente que a dinamite, que o sábio português fez questão de ser usado apenas para fins pacíficos.

Mas a vida multifacetada e misteriosa do padre Himalaya, que para além da energia solar interessou-se por outras formas de energia, como a das marés, para a produção de electricidade, foi naturalista, tendo criado medicamentos à base de plantas, foi iridologista, etc., ainda hoje é pouco conhecida.

Sobre a sua vida e obra, conhecemos o livro “A Conspiração Solar do Padre Himalaya”, do professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Jacinto Rodrigues, e um filme também da responsabilidade do mesmo professor que considera o Padre Himalaya um pioneiro da Ecologia.

Pena é que tanto o livro como o filme não tenham grande divulgação nas escolas dos Açores, mas os ensinamentos que da sua leitura ou visionação se poderiam tirar parecem não ser prioridade para quem comanda os destinos da Região.

Depois da educação ambiental ter entrado em desuso, da educação para a energia nunca ter sido levada a sério, a nova aposta é no “empreendorismo”, que ainda não percebi bem o que é, nem para que serve, e não me vou dar ao trabalho de me informar, pois tenho receio de que, quando já estiver por dentro do assunto, a moda já tenha passado.

2- O padre Himalaya e os Açores

Não temos a pretensão de referir neste espaço tudo o que foi feito, nos Açores, para divulgar a vida e a obra do Padre Himalaya. Assim, mencionaremos iniciativas em que de um modo ou de outro estive envolvido, bem como um texto de Alice Moderno publicado no princípio do século passado.

Em 1987, Ano Europeu do Ambiente, os Amigos da Terra/Açores e a Escola Secundária Antero de Quental, promoveram uma “Semana das Energias Renováveis” que teve como objectivos, entre outros, sensibilizar a população estudantil para o problema energético mundial e discutir vantagens e desvantagens das diferentes alternativas energéticas. Nesta semana foi editada e divulgada a brochura “Um estranho sábio português”, com um texto sobre o Padre Himalaya, da autoria do professor Jacinto Rodrigues.

No ao lectivo 2003-204, por iniciativa da Sociedade Portuguesa de Energia solar, surge, a nível nacional, o Concurso Solar Padre Himalaya, dirigido aos alunos ds escolas, públicas ou privadas, dos ensinos básico e secundário que pretendia “estimular a construção de protótipos didácticos que utilizem tecnologia de conversão de energia solar”.

Nos Açores, em 2005 e 2006, o concurso foi apoiado e divulgado pela ARENA que organizou, em cada um dos anos referidos, na Ilha de São Miguel, sessões de informação/formação para professores e alunos. Em ambos os anos, estiveram presentes na final realizada, em Lisboa, alunos de escolas de várias ilhas dos Açores que tiveram a oportunidade apresentar carrinhos e fornos solares por eles construídos.
No início do século passado, Alice Moderno citou um texto onde o autor, a propósito do modo como o país tratava a ciência, escreveu o seguinte: “Fuja, padre Himalaya, fuja, que isto apesar de fingir civilizado ainda, está no íntimo, no mesmo estado em que se encontrava no tempo em que foi perseguido o Padre Bartolomeu de Gusmão por ter inventado a passarola”… “Isto aqui não é terra para sábios nem para inventores, nem para estudiosos”…”Aqui a sabedoria só faz carreira na política. Aí sim, aí, quem tiver invenções mesmo que não possua ideias, é gente”.

Teófilo Braga

quinta-feira, agosto 25, 2011




Esquerdalhos, Renegados e outros Bandalhos

Conheça os figurões que, depois de se "reciclarem", nos governam a vida através da leiturea deste pequeno livro do Coronel Varela Gomes que a propósito escreveu:

"O sistema burguês/capitalista que hoje em dia domina o mundo, é: Um sistema canalha. Quem o apoia em canalha se converte."

quarta-feira, julho 27, 2011



Turismo, a torto e a direito

Durante alguns anos, a propaganda oficial fez com que muito boa gente acreditasse que os Açores eram atrasados porque possuíam muita gente no sector primário e que o progresso açoriano só seria possível se a região abandonasse os campos e as pescas e passasse a ser uma prestadora de serviços.
O peixe viria da Austrália, os melões de Almeirim, as uvas da África do Sul, os pepinos de Espanha e o leite viria das “nossas” vacas que também eram antiquadas pois ainda comiam erva (hoje não se sabe bem qual o seu alimento), daí foi um tal abandonar a agricultura que não é o mesmo que pecuária, embora alguns governantes, que como sabemos não são deficientes, continuem a confundir uma coisa com a outra.
A saída do atoleiro onde anda(va) a economia regional foi encontrada na aposta num novo “ciclo”, o do turismo interno e externo. Se o primeiro tem tido algum sucesso, através das viagens (subsidiadas) de barco entre as ilhas, o segundo parece que, pelo menos nos últimos tempos, nem por isso.
É precisamente o turismo ou, melhor, a palavra turismo que é a arma de arremesso que serve para tudo justificar, até o impossível, como exemplificarei a seguir.
Se uma associação ambientalista ou que se diz como tal solicitava apoio para algum projecto, para além de ter de mencionar a importância didáctica, científica ou conservacionista do mesmo, aproveitava a ocasião para enxertar o interesse turístico pois esta referência era meio caminho para que as diversas entidades mais facilmente abrissem os cordões à bolsa.
Se uma entidade queria asfaltar uma travessa, cimentar um beco ou arranjar uma canada, para conseguir apoio bastava tentar ludibriar a tutela, apresentando um projecto de trilho pedestre, claro, de elevado interesse turístico.
Se um cidadão tinha a intenção de recuperar uma casa e não queria fazer as obras à sua custa, apresentava um projecto de turismo de habitação, em virtude do tão elevado interesse turístico do empreendimento.
Se um grupo pretendia incrementar a tortura animal, introduzindo a sorte de varas e os touros de morte, depois de conseguir a primeira, e no século XXI não há argumento decente para tal, a solução é (será?) alegar que aquelas “artes” atrairão milhares de aficionados de todo o mundo e outros tantos de outros planetas. Volta a estar, portanto, presente o incansável argumento turístico.
Se uma autarquia quer apoiar uma festa de Verão recém-nascida ou outra cuja tradição já é secular, felizmente não tem uma só solução. Para além do estafado interesse turístico e do quase garantido apoio da tutela, caso as cores partidárias sejam as mesmas, tem, também, à sua disposição o PRORURAL.
Para quem tiver a paciência de ler, embora não recomende pois de uma farsa se trata já que compara a incineração com um aterro (que não é alternativa a nada), o estudo de impacte ambiental do Ecoparque da Ilha de São Miguel, vulgo incineradora, terá a oportunidade de ficar a saber que, para além dos impactos positivos na saúde e no ambiente, o mesmo terá impactos positivos no turismo. Há alguns anos, no reinado do PSD, os pontos turísticos de São Miguel eram as Furnas, as Sete Cidades, a Lagoa do Fogo e a Escola Secundária das Laranjeiras, agora o reino socialista, depois de substituir a Escola das Laranjeiras pela Secundária da Lagoa, pretende acrescentar a Incineradora das Murtas.
Podia continuar a apresentar mais exemplos, mas, para não maçar o leitor e por economia de tempo e espaço, fico por aqui, deixando a seguinte questão:
É turismo para aqui e para ali, são turistas, turistas e mais turistas. E nós, açorianos - incluo todos os que aqui decidiram viver em harmonia com os que cá nasceram e não às costas destes - não contamos para nada?

27 de Julho de 2011

Teófilo Braga

Fonte: Correio dos Açores