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terça-feira, janeiro 06, 2009

20 teses contra o capitalismo verde


29-Dez-2008
Tadzio Mueller e Alexis Passadakis
1 – A actual crise económica mundial marca o fim da fase neoliberal do capitalismo. O “business as usual” (financiarização, desregulação, privatização...) já não é uma opção: novos espaços de acumulação e tipos de regulação política terão de ser encontrados pelos governos e pelas corporações para aguentar o capitalismo.
2 – Além das crises económica, política e energética, existe outra crise a abalar o mundo: a biocrise, resultado de um desencontro suicida entre o sistema de apoio à vida ecológico que garante a sobrevivência humana e a necessidade do capital de crescimento constante.
3 – A biocrise é um perigo imenso para a nossa sobrevivência colectiva, mas como todas as crises também apresenta a nós, movimentos sociais, com uma oportunidade histórica: atacar a jugular exposta do capitalismo, a sua necessidade de crescimento incessante, destrutivo, louco.
4 – Das propostas que emergiram das elites globais, a única que promete resolver todas estas crises é o “New Deal Verde”. Não se trata do capitalismo catita 1.0 da agricultura biológica e das turbinas eólicas urbanas, mas antes de uma proposta para uma fase “verde” do capitalismo que procura gerar lucros da modernização ecológica de determinadas áreas de produção (automóveis, energia, etc.).
5 – O capitalismo verde 2.0 não pode resolver a biocrise (alterações climáticas e outros problemas ecológicos como a redução perigosa da biodiversidade) mas antes tenta lucrar com ela. Não altera portanto de forma fundamental a rota de colisão na qual qualquer economia de mercado coloca a humanidade na biosfera.
6 – Não estamos nos anos 1930. Na altura, sob a pressão de poderosos movimentos sociais, o “New Deal” redistribuiu poder e riqueza no sentido descendente. O “New New” e o “New Deal Verde” discutidos por Obama, partidos verdes em todo o mundo e mesmo algumas multinacionais visa promover a riqueza das corporações, não das pessoas.
7 – O capitalismo verde não irá desafiar o poder daqueles que actualmente emitem mais gases com efeito de estufa – as empresas produtoras de energia, companhias aéreas, fabricantes de automóveis, a agricultura industrial – antes irá simplesmente dar-lhes mais dinheiro para manter as suas taxas de lucro realizando pequenas mudanças ecológicas que serão insuficientes e tardias.
8 – Dado que globalmente os trabalhadores têm perdido o seu poder para negociar e exigir direitos e salários decentes, num sistema de capitalismo verde, os salários irão estagnar ou até declinar para anular os custos crescentes da “modernização ecológica”.
9 – O Estado no capitalismo verde será um Estado autoritário. Justificado pela ameaça da crise ecológica, vai “gerir” a revolta social que surgirá necessariamente do empobrecimento que assenta no aumento do custo de vida (alimentação, energia, etc.) e na diminuição dos salários.
10 – No capitalismo verde, os pobres terão de ser excluídos do consumo, arrastados para as margens, enquanto os mais ricos vão poder “anular” o seu comportamento cada vez mais destrutivo ambientalmente consumindo e salvando o planeta ao mesmo tempo.
11 – Um estado autoritário, grandes desigualdades sociais, riqueza dada às corporações: do ponto de vista da emancipação social e ecológica, o capitalismo verde será um desastre do qual nunca poderemos recuperar. Hoje, temos uma oportunidade de ir além da loucura suicida do crescimento constante. Amanhã, no momento em que todos nos tivermos habituado ao novo regime verde, essa oportunidade pode ter sido desperdiçada.
12 – No capitalismo verde, existe o perigo de que os grupos ambientalistas mainstream e institucionalizados cumpram o papel que os sindicatos cumpriram na era fordista: actuando como válvulas de segurança que asseguram que as exigências para a mudança social e a nossa revolta colectiva permaneçam nas fronteiras traçadas pelas necessidades do capital e dos governos.
13 – Albert Einstein definiu insanidade como “fazer a mesma coisa vezes e vezes sem conta esperando diferentes resultados”. Na década passada, apesar de Quioto, não só a concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera aumentou mas também aumentou a taxa de crescimento. Queremos simplesmente mais do mesmo? Não seria isso uma loucura?
14 – Os tratados internacionais climáticos promovem falsas soluções que frequentemente abordam mais a segurança energética que as alterações climáticas. Longe de resolver a crise, o comércio de emissões, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, a Implementação Conjunta e os “offsets” oferecem um escudo político para a produção continuada de gases de efeito de estufa com impunidade.
15 – Para muitas comunidades no Sul, estas falsas soluções (agrocombustíveis, “desertos verdes”, projectos MDL) são agora uma maior ameaça que o aquecimento global.
16 – As verdadeiras soluções para a crise climática não serão concebidas por governos ou corporações. Podem apenas emergir de baixo, de movimentos sociais pela justiça climática trabalhando numa rede global.
17 – Estas soluções incluem: a rejeição do livre comércio, da privatização e dos mecanismos de flexibilidade. Sim à soberania alimentar, sim ao decrescimento, sim à democracia radical e a deixar os recursos no subsolo.
18 – Como um movimento global pela justiça climática emergente, devemos lutar contra dois inimigos: de um lado as alterações climáticas e o capitalismo fóssil que as causa e do outro um capitalismo verde emergente que não as irá travar mas irá antes limitar a nossa capacidade para o fazer.
19 – Como é claro, alterações climáticas e comércio livre não são a mesma coisa mas o protocolo de Copenhaga será uma instância de regulação central do capitalismo verde tal como a OMC foi central para o capitalismo neoliberal. Então como nos relacionamos com ele? O grupo dinamarquês KlimaX argumenta: um bom acordo é melhor que nenhum acordo – mas nenhum acordo é bem melhor que um mau acordo.
20 – A probabilidade de que os governos consigam um “bom acordo” em Copenhaga é nula ou quase nula. O nosso objectivo deve ser portanto o de exigir um acordo em torno de soluções reais. Esqueçamos Quioto e acabemos com Copenhaga!

Alexis é um membro do Concelho Coordenador da ATTAC alemã. Tadzio faz parte do colectivo editorial Turbulence (www.turbulence.org.uk). Ambos estão activos no emergente movimento pela justiça climática e podem se contactados em againstgreencapitalism (at) googlemail.com
Tradução: Ricardo Coelho

Retirado daqui: http://www.ecoblogue.net/index.php?option=com_content&task=view&id=2864&Itemid=41